Oportunidades na ovinocultura
A carne ovina será a proteína do futuro. Esse é um discurso praticamente unânime entre muitos profissionais que integram a cadeia produtiva. A demanda nacional por carne de cordeiro é pelo menos 50 milhões de cabeças. Mas a produção é de 16 milhões. Saiba como conquistar escala e qualidade no seu rebanho.
Roberto Nunes
Custo de produção mais vantajoso em relação a outras atividades pecuárias, necessidade de menor espaço territorial e atrativos nutricionais estão entre os principais fatores que motivam essa opinião. Apesar disso, muitos especialistas da ovinocultura concordam em uma importante questão: ainda falta organização para o mercado deslanchar.
De acordo com Paulo Schwab, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos (ARCO), um dos principais problemas da produção nacional é o fato de a demanda por carne ainda ser maior do que a oferta. “Importamos cerca de 56% do que consumimos, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Esse cenário é consequência da falta de padronização e regularidade dos lotes fornecidos ao mercado”, observa.
Schwab acredita que o Brasil tenha condições de se tornar autossuficiente, uma vez que a procura por esse produto é cada vez mais crescente, incentivando investimentos por parte de todos os elos da cadeia produtiva. Mas, para isso, o País terá de passar das atuais 16 milhões de cabeças, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para pelo menos 50 milhões. “Para alcançarmos essa margem, precisamos corrigir sérios problemas que ocorrem na criação, como o alto índice de mortalidade. Cerca de 10 anos é tempo suficiente para aumentarmos o rebanho brasileiro ao volume ideal”, afirma o dirigente.
O presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (Aspaco), Arnaldo dos Santos Vieira Filho, também acredita que o Brasil terá condições de suprir a demanda interna e de, inclusive, se tornar um grande exportador de carne de carneiro. No entanto, não arrisca um prazo. Segundo ele, ações de incentivo ao consumo e ao fim do abate informal e da comercialização de animais fora do padrão ideal são fortes elementos para que o atual quadro seja revertido.
“Esclarecimentos para o público sobre as propriedades e características organolépticas [tais como cor, sabor, odor e textura] da carne do cordeiro são essenciais para o incentivo do consumo, fazendo com que as pessoas a comam mais em seu dia a dia e não somente em festas como Páscoa e Natal”, defende o presidente da Aspaco.
Cuidado com o rebanho — Outra questão que envolve o aumento da produção nacional é a alta taxa de mortalidade de cordeiros. O período que compreende 30 dias antes e 30 dias após o parto é um dos momentos mais críticos no ciclo produtivo. Fase determinante para a sobrevivência dos recém-nascidos.
Segundo Fernando Henrique Albuquerque, analista do comitê gestor de campos experimentais da Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral, CE), a fase mais preocupante é o período de cria, principalmente na primeira semana de vida, com mortes variando de 10% a 20%. “Mas existem registros de índices de mortalidade até o desmame superiores a 30%”, revela. Falhas reprodutivas, incidência de doenças infectocontagiosas e parasitárias, parto duplo, desnutrição das ovelhas, adversidades climáticas, realização de manejos inadequados, problemas estruturais e o complexo inanição/hipotermia são as principais causas.
O consultor técnico da Premix Nutrição Animal, Danilo Arelaro, acrescenta que outro fator de risco são os predadores, dentre eles cães, animais silvestres, roedores e aves como urubus e gaviões. Por isso é preciso oferecer um lugar seguro para a ovelha parir. “Os cordeiros são bastante frágeis e nascem com poucas reservas de tecido, sendo muito dependentes da nutrição e proteção maternas e sensíveis à ação climática, como temperaturas extremas e chuvas. É por isso que as mortes, na maioria das vezes, ocorrem nas primeiras 72 horas”, observa.
Nos sistemas de produção de ovinos de corte, as atividades de manejo devem ser analisadas como um conjunto de ações que integram o processo produtivo, composto pela pré-monta, estação de monta, gestação, parto, lactação, desmama, recria e terminação. Assim, em cada uma dessas fases, pode-se definir quais os principais aspectos tecnológicos e não tecnológicos que devem ser empregados no planejamento e no monitoramento do sistema.
Programas e ferramentas não faltam. No entanto, deve-se ter especial atenção com um elemento considerado primário, mas de extrema importância para a integridade dos animais: as instalações. De nada terá efeito utilizar avançados programas nutricionais e sanitários se a propriedade tiver sérios problemas de ambiência.
Aspectos relacionados ao conforto térmico, localização, densidade animal, separação de categorias, limpeza e higienização, posicionamento e área de cochos e bebedouros, tipos de piso, pastagens, dentre outros elementos, são os primeiros a serem considerados. “Muitos problemas sanitários ocorrem em função de falhas no planejamento da construção das instalações” esclarece o analista da Embrapa. Por isso, essas devem estar em local seco, alto, pouco inclinado e em solo compactado e ensolarado. O ideal é que sejam protegidas dos ventos fortes e estejam localizadas próximas a uma fonte de água. Cercas adequadas, cochos benfeitos e um curral que propicie praticidade no manejo também devem ser priorizados.
Conforme explica Arelaro, da Premix, as instalações devem ser planejadas para que ofereçam conforto aos animais. “Galpão bem arejado, higiênico, sem correntes de vento, com baixa amplitude de variação de temperatura, sem radiação solar direta e ausência de poeira excessiva são fatores que vão determinar o sucesso do empreendimento”, enfatiza. “Áreas de isolamento para animais doentes e de quarentena também devem ser construídas”, complementa Albuquerque.
(continua)
Leia a matéria na íntegra na Revista Terraviva nº22, nas bancas.