Aprenda a conviver com a pérola-da-terra
De difícil controle, a praga que mais tira o sono dos viticultores pede cuidadoso manejo com o solo e com o parreiral.
Márcia Dietrich
O cultivo de uvas no Brasil vem se firmando como uma atividade importante para a sustentabilidade econômica de pequenas propriedades e para a geração de emprego em grandes empreendimentos que produzem frutos tanto para consumo in natura – uvas de mesa – quanto para a fabricação de sucos e vinhos. Exatamente por isso, o controle de pragas, em especial a pérola-da-terra, vem sendo exaustivamente buscado e importantes avanços feitos nesse sentido indicam aos viticultores como conviver bem com o problema, afinal, a erradicação de algumas delas ainda é considerada impossível.
Nativa do Brasil, a pérola-da-terra (Eurhizococcus brasiliensis) é uma cochonilha subterrânea que ataca as raízes de diversas plantas cultivadas e silvestres. É considerada a principal praga da videira e já foi responsável pelo declínio da cultura em várias regiões do País. Além da uva, várias espécies frutíferas de clima temperado – anuais e perenes –, plantas ornamentais, leguminosas e hortaliças são hospedeiras do inseto que ocorre principalmente na região Sul e em São Paulo, com presença já constatada também no Vale do São Francisco, em Petrolina (PE), Minas Gerais, Paraná, Bahia e Piauí.
No segundo estágio de um ciclo biológico bastante longo e complexo, a cochonilha se encerra no interior de uma cápsula protetora, assumindo formato esférico, de coloração amarelada. Daí a denominação pérola-da-terra. “Nessa fase o inseto se aloja nas raízes da planta, perfurando-as para se alimentar da seiva, o que provoca um definhamento progressivo da videira, com redução na produção e consequente morte da planta.” A explicação é do engenheiro-agrônomo, doutor em entomologia e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (Bento Gonçalves, RS) Marcos Botton. Ele acrescenta que, ao perfurar as raízes, a pérola-da-terra favorece o ataque de fungos presentes no solo, o que acaba agravando o problema. Os sintomas de declínio da videira, porém, não aparecem de imediato, tornando-se visíveis após o primeiro ano de infestação. “O comprometimento do sistema radicular impede a absorção adequada de água e nutrientes pela planta, ocasionando, inicialmente, perda de vigor nas brotações, aparecimento de manchas amareladas entre as nervuras das folhas (clorose), e, em um estágio mais avançado, queda de grande parte do tecido foliar e a morte da planta.” Segundo Botton, os prejuízos são imensos, pois a produtividade do vinhedo cai rapidamente e muitas vezes só resta ao produtor arrancar o parreiral e começar de novo em outra área, ou na mesma, desde que tomadas medidas rígidas de controle da doença, para evitar que o problema se repita.
Erradicação não, controle sim — De acordo com o engenheiro-agrônomo e doutor em melhoramento genético em fruticultura Marco Dalbó, chefe da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) – Gerência Regional de Videira, é ilusório pensar em erradicação completa da pérola-da-terra por diversos motivos: trata-se de uma praga subterrânea, o que dificulta a aplicação e a ação direta de inseticidas, os quais, por sua vez, têm a eficácia comprometida porque os insetos adultos têm o corpo coberto por uma camada de cera que os protege do defensivo. “Além disso, sua disseminação é muito fácil, pois se dá por meio de formigas doceiras que são atraídas pelos excrementos açucarados da cochonilha e acabam dispersando a praga ao cavarem galerias sob o solo. A utilização de mudas enraizadas, infestadas pela praga, tanto de videira (em casos de replantio) como de outras frutíferas de clima temperado e até de plantas ornamentais também contribui para seu transporte de um lugar para outro. Algo que também pode ocorrer pelo uso de equipamentos agrícolas contaminados”, cita Dalbó.
A esses fatores o engenheiro-agrônomo e também pesquisador da Epagri Videira Remi Dambrós acrescenta outros, que concorrem para o aparecimento e/ou a perpetuação da pérola-da-terra nos parreirais: “Solo com excesso de umidade, mal drenado, muito argiloso, ou compactado; replantios realizados em locais onde já havia antigos parreirais que morreram ou foram arrancados; cultivo em pé-franco (sem enxerto) de cultivares reconhecidamente sensíveis ao ataque de pragas e doenças de solo; uso de determinados fungicidas, herbicidas e adubos foliares que podem causar danos ao parreiral, refletindo no desenvolvimento das plantas”.
O conjunto de tais ocorrências mais do que justifica a afirmação de que é impossível pretender-se a eliminação da pérola-da-terra. Contudo, tanto os pesquisadores da Epagri quanto o da Embrapa Uva e Vinho, Marcos Botton, são unânimes em afirmar que já existem medidas de controle capazes de permitir a convivência das videiras com a praga, mantendo-se a produtividade e longevidade dos parreirais. Essas medidas incluem manejos de solo e manejos das plantas, de forma a oferecer o máximo de condições para que a videira se desenvolva com todo vigor e que, independentemente da presença do inseto, não haja prejuízos de produtividade.
(Continua)
Leia a matéria completa na edição nº 23 da Revista Terraviva